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CSI: descobrimos o Grissom brasileiro |
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27 de February de 2008 |
Rodrigo Capella
Especial para o Diário de Cuiabá
Os números impressionam. Renato Pattoli, perito criminal do Estado de
São Paulo, já participou de mais de dois mil casos, em doze anos de
carreira. Mas, o que mais chama atenção é a familiaridade entre Pattoli
e Grissom, personagem da série CSI. Ambos possuem uma técnica de
perícia centrada na intuição e já solucionaram crimes difíceis após
analisar insetos, pegadas e muitas provas que estavam, aparentemente,
ocultas.
Portanto, não faltam casos curiosos no currículo do perito brasileiro,
que começou analisando um cadáver morto na estrada do Alvarenga e hoje
é requisitado para acompanhar os casos mais complexos. A lista é
extensa: marca de pé é fotografada, pólen encontrado na calça de um
suspeito e pedaço de lã descoberto no pescoço de um homem que,
teoricamente, havia se enforcado.
Com uma tranqüilidade fora do comum e muito receptivo, Renato Pattoli
contou essas histórias para Rodrigo Capella, colaborador do DC
Ilustrado. E sem muito esforço, lembrou-se detalhadamente de casos que
aconteceram há mais de dez anos. Dessa forma, ele não precisou recorrer
as suas anotações, bastante organizadas. No computador particular, por
exemplo, o perito tem uma pasta com informações de todos os casos em
que participou.
Formado em agronomia, Pattoli costuma propor caminhos diferentes e
inusitados para as investigações, principalmente quando os casos
parecem não ter solução. Acompanhe a seguir os principais trechos da
entrevista, que durou cerca de quatro horas.
Você descobriu um caso após analisar detalhadamente uma pegada. Quais os procedimentos utilizados?
Um médico foi morto a facadas em sua casa. Nós fotografamos o local do
assassinato, fizemos o laudo e tínhamos quase certeza de que se tratava
de um latrocínio, ou seja, roubo seguido de morte. No decorrer da
investigação, começamos a suspeitar que fosse homicídio, que é
caracterizado pelo vínculo entre a vítima e o assassino, que mata por
algum motivo específico. Recebi uma foto tirada na cozinha do médico.
Era de uma pegada de sangue grudada em um azulejo. Eu ampliei a
fotografia para tirar a impressão digital do pé, mas a imagem ficou
borrada porque a marca havia sido feita em movimento. Mas, percebi que
a pegada tinha algumas zonas de maior apoio. Isto é, em algumas partes
havia mais sangue do que em outras. Levantei a hipótese de que poderia
ser pé chato. Fiz alguns estudos, conversei com profissionais e
analisei a imagem a fundo. Descobri também que o assassino não apoiava
direito as falanges, e pisava fortemente com as pontas dos dedos,
configurando-se em um andar digitígrado, em formato de tigre. O excesso
de sangue na pegada denunciava um outro dado interessante: o assassino
tinha perna de cowboy. Eu fiz outros procedimentos também, tais como
medir a curva do pé e provei que ele realmente tinha pé chato.
Analisando a pegada, levantei algumas informações sobre o assassino:
andar digitígrado, perna de cowboy e pé chato. Quantas pessoas têm essa
característica? Na época, eu não sabia, mas tinha a certeza de que não
eram muitas. Um outro dado interessante: o médico era homossexual e
tinha relações com garotos de programa. Esse foi o nosso ponto de
partida.
E como se desenvolveram as investigações?
Localizamos alguns garotos de programa e os levamos para a
delegacia. Lá, comparamos a pegada da foto com os pés de
aproximadamente 600 pessoas e um deles se encaixou nas características.
Iniciava-se, nesse momento, um novo problema. Para prender uma pessoa,
precisamos sempre formalizar a prova. Fiz, então, um laudo relatando a
similaridade entre o pé do suspeito e o pé encontrado na cena do crime.
Mais tarde, o rapaz confessou ter cometido o crime.
Em um outro caso, você utilizou os seus conhecimentos de
agrônomo para descobrir que um suspeito estava mentindo. Você poderia
dar detalhes?
Uma moça foi encontrada morta dentro de um terreno baldio. Na frente,
estava o carro dela. Eu fui chamado para fazer a perícia do veículo,
mas por curiosidade acabei indo ver o cadáver. Quando entrei no
terreno, percebi que havia o capim braquiaria decumbens e que ele
estava em época de floração. Essa planta tem uma característica
curiosa: o pólen adere a qualquer tipo de estrutura com o objetivo de
perpetuar a espécie. Então, quem entrou no terreno para levar o
cadáver, certamente tinha esse pólen grudado na calça. Um ex-namorado
da vítima estava sendo investigado e ele foi até a delegacia.
Conversamos durante algumas horas, mas rapaz negava que tivesse entrado
no terreno. Para tirar a dúvida, eu solicitei que ele me entregasse a
calça para fazermos os exames.
E como se procedeu o caso?
Os exames foram realizados no Instituto Botânico. Entrei em contato com
eles, fizemos uma solicitação e tudo correu bem. O resultado apontou
que realmente havia pólen de braquiaria decumbens na calça do
ex-namorado da vítima e também revelou que dentro do bolso do rapaz
havia uma assa de um inseto que ataca a braquiária. Essa análise
comprovou que o homem havia entrado no terreno. Não pudemos afirmar que
ele era o assassino, mas provamos que o ex-namorado estava mentindo.
Você utilizou alguma técnica particular para solucionar esses dois casos?
Na perícia não há uma regra, pois cada caso é um caso. Mas, eu
uso muita intuição. A cena do crime é preservada e eu fotografo,
buscando registrar todos os elementos em torno do cadáver. Depois, eu
vou até a vítima, e olho, entre outras coisas, se ela tem ferimento e
se a roupa não foi trocada. Faço várias anotações e depois analiso a
cena do crime detalhadamente. O perito precisa ter uma mente aberta e
ser muito curioso. Quando eu entro no local do assassinato, questiono
tudo e vou em busca de respostas. Durante a perícia, você percebe
coisas estranhas, como uma mancha de sangue escorrida contra a
gravidade. Essas particularidades precisam ser analisadas, pois em 90%
dos casos conseguimos descobrir porque elas aconteceram. O perito é os
olhos do juiz. Ele vê, fotografa e faz o laudo, que só pode ser
conclusivo quando se tem a certeza e a prova. Muitas vezes, você sabe
como aconteceu, mas não tem elementos para comprovar.
Você pode exemplificar um caso em que o seu laudo contribuiu bastante para a conclusão do caso?
Um homem tinha sido enforcado e eu fui fazer a perícia. Sentia que
havia algo estranho naquele cadáver. Eu desfiz o nó, que rodeava a
cabeça do homem, e encontrei um pedaço de lã vermelha. Fomos até a casa
da vítima, olhamos no armário e não encontramos uma roupa com a mesma
cor da lã. Voltamos ao local onde estava o cadáver e observamos que uma
mulher estava chorando bastante. Era a namorada do homem e estava
vestindo uma blusa vermelha. Solicitei a vestimenta para a perícia e
foi comprovado: a lã tinha saído daquela blusa. Pouco tempo depois, a
mulher confessou a autoria do crime.
Em seriados de televisão é comum o assassino manipular a cena do crime,
fazendo com que um homicídio pareça um suicídio. Você já enfrentou
casos assim?
Já, isso é bem comum. Certa vez, eu fiz a perícia de um caso em
que uma mulher idosa, aparentando 80 anos, foi encontrada morta. A
família estava sustentando a tese de que havia sido um latrocínio.
Durante a perícia, eu encontrei uma caixa de jóias escondida atrás de
uma vitrola. Ela era pesada e eu tive que fazer uma grande força para
tirá-la do lugar. Achei muito estranho e comecei a duvidar da família,
pois ela afirmava que a caixa sempre esteve ali, o que não era verdade.
Tentaram acobertar o crime, mas não conseguiram. Um sobrinho endividado
assumiu a autoria do assassinato.
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